Mercado Público de Porto Alegre desencoraja o uso da bicicleta como transporte (via Massa Crítica – POA)
Felizmente tenho mais motivos para me orgulhar do meu país do que para sentir vergonha, mas algumas dessas que me fazem querer meter a cabeça num buraco são realmente inaceitáveis. Leio notícias sobre os países europeus incentivando o uso de bicicletas por inúmeros motivos (evitar engarrafamentos e diminuir a poluição são apenas alguns deles) e que, supostamente, deveríamos tomar como exemplo aqui. O seguinte texto é triste. Aliás, triste é pouco. Fico me perguntando: quando que esse país vai finalmente ir pra frente? Quando essa gente vai entender que progresso não é sinônimo de quantidade de carros per capita, construção de estradas e concreto sobre concreto?
Mobilidade urbana: desafio MUITO urgente
Tenho um recorte em mãos do Jornal VS na qual um dos vereadores de São Leopoldo, Fernando Henning, exprime sua opinião sobre mobilidade urbana. Uma opinião vista por de trás do pára-brisa. Por meio deste texto, gostaria de cutucar não só o vereador, pois este faz parte de um grupo de pessoas que tem a mobilidade urbana como uma de suas preocupações para a cidade em 2024 (bicentenário da imigração alemã), como também o próprio Jornal VS, que diariamente faz duras críticas aos congestionamentos na BR-116 e, no entanto, exibe diversos anúncios de automóveis em suas páginas. Uma contradição.
Como o próprio Fernando diz em seu texto, em São Leopoldo foram 1212 carros novos em apenas três meses deste ano. Para uma cidade como a nossa, isso é muita coisa e percebo isso bem. Diariamente faço o deslocamento São Leopoldo – Novo Hamburgo para ir ao trabalho, de ônibus. Em horários de pico, um trajeto que até poucos anos atrás poderia ser feito em cerca de 20 minutos, hoje leva uma hora. Concordo completamente com o vereador quando este diz que deve haver um investimento maior no transporte coletivo e no que diz respeito à linhas circulares na cidade, evitando que moradores tenham que vir até o centro para então se deslocarem até outro bairro. Conseqüentemente, isso diminuiria o movimento na região central da cidade. No entanto, vejo São Leopoldo como uma cidade “planejada” exclusivamente para o transporte motorizado. Vide nossas poucas ciclovias por exemplo, que levam do nada ao lugar nenhum.
Quando se pensa em mobilidade, é preciso levar muitos pontos em consideração. Diariamente, arrisco dizer que milhares de pessoas vão para o trabalho de bicicleta em nossa região. É preciso pensar na segurança dessas pessoas: jovens, velhos, pais e mães de família que não são menos que ninguém apenas por preferir um meio de transporte que proporciona maior liberdade e, de quebra, não polui. O status social proporcionado pelo automóvel não deve ser levado em consideração se a intenção for proporcionar melhorias para toda a população. É esta a intenção do vereador?
Recentemente uma das principais avenidas de São Léo, a João Corrêa, foi completamente reestruturada. Suas pistas foram alargadas e as calçadas diminuidas. Não vejo motivo para não ter sido construida uma ciclovia em toda sua extensão, visto que muitos ciclistas trafegam por ali diariamente. Já na Av. Imperatriz Leopoldina existe sim uma ciclovia, que oferece uma pífea segurança à quem por ela trafega. Caso seja necessária uma ultrapassagem (de bicicletas), é preciso esperar até algum cruzamento, onde não existem os blocos de concreto de “proteção”.
Um detalhe no texto do Fernando que me chamou a atenção foi que em nenhum momento ele cita a bicicleta como meio de transporte, justamente numa opinião sobre mobilidade urbana. Não vejo como essa mobilidade possa melhorar apenas considerando trem, automóveis e ônibus. Inclusive achei um absurdo quando ele diz que “a conquista de um carro pelos leopoldenses é um fato positivo, uma melhora na vida das pessoas”. Indago-o: melhora em que ponto, se quanto mais carros tivermos nas ruas maiores serão os congestionamentos? Não há quem não fique estressado em um. Outro ponto que também gostaria de levantar é que simplesmente construindo mais avenidas (ou alargando as já existentes) se consegue uma solução temporária para o problema do tráfego. Logo essas novas vias estarão tomadas pela crescente frota automotiva (1212 carros novos em apenas três meses deste ano). Por outro lado, concordo novamente com o vereador quando ele diz que a climatização dos trens possa ser um atrativo para que as pessoas deixem seus carros em casa.
Quanto ao Jornal VS (e o NH também), fico muito chateado quando vejo notícias e mais notícias sobre os constantes congestionamentos nas rodovias da região ao lado de um anúncio de automóvel. Isso deixa o leitor, no mínimo, confuso. Em certos trechos do meu trajeto de volta a bordo do Centralão, vejo cenas lastimáveis causadas por esses congestionamentos. A mais comum delas são os motoristas que invadem calçadas para ganhar alguns metros de vantagem. Pergunto: de que adianta o jornal criticar furiosamente estes congestionamentos, como que procurando alguém para culpar, se sempre dá razão às montadoras e seus anúncios? Os motoristas nunca estão errados, não há nada de mal em comprar um carro novo e ser mais um a ficar preso ali porque o estado não disponibiliza uma estrutura maior para o transporte individual, não é mesmo? Hipocrisia em sua essência. Mas tudo bem que estes congestionamentos são gerados porque esses carros são ocupados, em sua maioria, por uma única pessoa. Esta é a São Leopoldo que será deixada para as futuras gerações?
Já que o vereador Fernando Henning está planejando uma São Leopoldo melhor para a comemoração dos 200 anos da imigração alemã, convido-o a pegar alguns exemplos sobre mobilidade lá da Alemanha, onde o uso da bicicleta é muito estimulado. E já que em seu texto o Fernando fala também sobre a copa de 2014, que tal pegar mais um exemplo de nossos imigrantes? Parafraseio parte deste texto do Blog de Ecologia Urbana: “Berlim, uma das sedes da Copa do Mundo de Futebol, em 2006, aproveitou o evento para desestimular o uso de carros. Num raio de 3 kms dos estádios, nada entrava senão pedestres e ciclistas . Num raio ainda maior, carros não entravam.” E da mesma forma, desafio o Grupo Editorial Sinos a pensar em mais soluções e não só reclamar dos congestionamentos em seus jornais. Em tempo: soluções reais para a mobilidade ao invés de pensar em apenas num seleto grupo de classe média-alta. A bicicleta é o veículo mais utilizado no mundo.
Aos interessados, digitalizei o texto do Fernando Henning, inclusive o verso do recorte. Ironicamente, ele estampa um anúncio da Sinoscar, revenda de automóveis aqui da região. Frente e o verso.
Veja mais fotos aqui. Se as descrições das fotos não aparecerem, clique no botão Show Info no canto superior direito da tela. E veja só como são as coisas! Eu estava prestes a clicar no botão “Publish” quando vejo no twitter do @bvcicloturista o video abaixo. É uma reportagem do portal G1 sobre a bicicleta como meio de transporte para ir ao trabalho. Embora seja na cidade de São Paulo, a realidade aqui em São Leopoldo é a mesma. Assista!
E um update. Coloco aqui outro video que foi postado nos comentários pelo Olavo Ludwig. O video mostra o desafio do ex-prefeito de Bogotá em tornar a cidade mais humana e menos dependente dos automóveis. Uma frase que gostei muito é que o estacionamento de automóveis não é um problema público. Vale a pena assistir também.




