Standing at the crossroads
Os links para matérias cujos dados são citados no texto estão no fim deste post.
Perdoem o título em inglês, mas é inevitável que o presente não me remeta à célebre música de Robert Johnson. Eu realmente estou numa encruzilhada. Falar de eleições presidenciais, nessa altura do campeonato, é chover no molhado. Porém sinto-me na obrigação não de justificar, pois o voto é secreto, mas de compartilhar uma reflexão que vem durando dias e dias.
O leitor não precisa pesquisar muito este blog para saber que nunca defendi fervorosamente o governo petista, tampouco apoiei a candidatura de Dilma Rousseff. O que sempre defendi foi o voto facultativo ou nulo, no caso de nenhum candidato ir a favor dos princípios de cada um. E o fato é que nem Dilma, nem Serra vão a favor dos meus princípios. Talvez porque eu acredite num mundo demasiado justo, humano. E talvez por isso eu tenha votado num candidato que sabia não ter a mínima chance de ir para o segundo turno, porém ele era o que mais perto chegava daquilo que acredito.
Por um lado o governo petista está pondo em prática o projeto de Belo Monte, esquecendo-se propositalmente dos povos indígenas que vivem na região e que ficarão sem lar (entre tantos outros males). Sem uma boa justificativa, já que a hidrelétrica só funcionará com força total por apenas três meses ao ano e construtoras lucrarão alguns bilhões de reais. Este mesmo governo incentivou muito o uso do automóvel, algo que vai completamente contra as práticas de países desenvolvidos no que diz respeito a redução na emissão de CO2. Nas grandes cidades, o aumento da frota de transporte individual é inversamente proporcional a qualidade de vida. As pessoas gastam mais horas presas em engarrafamentos, a qualidade do ar diminui, o índice de mortes no trânsito aumenta e aumenta também a barreira entre os habitantes, dando-se prioridade ao individualismo ao invés do coletivo. E quando se fala em individualismo, deve-se levar em conta outras práticas que são consequências disso, como o elevado grau de consumismo, para citar apenas um exemplo.
Por outro lado temos a candidatura de José Serra que, mais uma vez, não concluiu seu mandato (dessa vez como governador do estado de São Paulo). Começando por aí, vê-se uma pessoa nada comprometida. Nunca estive em São Paulo, a não ser de passagem, então pouco posso falar sobre o que acontece por lá. Mas acompanho de perto movimentos oriundos da capital paulista de pessoas que lutam por um trânsito mais humano (lê-se menos carros, mais bicicletas e mais transporte público de qualidade). O que leio a respeito é desanimador e pode ser visto sob dois pontos. 1º: total desrespeito a ciclistas e pedestres (esquecendo-se que todo motorista também é um pedestre), com obras destinadas ao fluxo de veículos e financiadas pelo governo estadual sendo inauguradas antes mesmo de ficarem prontas. Largas avenidas sem passarelas para as pessoas e a derrubada de árvores centenárias para dar lugar a mais pistas de rodagem. 2º: o PSDB é um partido que privilegia minorias, no caso, a motorizada. E isso que Serra se diz ambientalista, o que é uma grande mentira.
Ainda sobre José Serra, em nenhum momento ele disse que não construiria Belo Monte ou que tomaria providências para a redução na emissão de CO2 (muito pelo contrário, como já foi provado). Então nestes pontos ele e Dilma estão empatados. Entretanto o que está em jogo é muito mais que a construção de uma hidrelétrica ou de rodovias. Ao lado do tucano está o PiG (Partido da Impensa Golpista) que, em atos de puro desespero, cavocam o atual governo atrás de escândalos, quando não os inventam. Quando a função da imprensa seria o de informar imparcialmente (princípio da imparcialidade, a primeira coisa que um aluno de jornalismo aprende na faculdade), o que ela faz hoje é difamar e apoiar um candidato que a beneficie futuramente. E isso é o que o PSDB sempre fez, deixou a maior parte do povo de lado para beneficiar uma pequena minoria da elite.
Isso quando o partido não toma atitudes absurdas, como o que Yeda Crusius fez aqui no Rio Grande. Durante seu governo, houve um sucateamento da educação. As faculdades de artes da UERGS permaneceram de portas fechadas para novos alunos durante três anos! Isso sem contar na grande fraude do Detran. “Ah, mas e o mensalão?”, diriam alguns. Sim, o mensalão foi um grande escândalo do governo Lula e este é um dos motivos para o partido jamais ter recebido meu apoio. Mas agora compare a cobertura da mídia sobre os dois casos. Graças ao PiG, o mensalão ainda está na boca do povo enquanto que a fraude do Detran já está praticamente esquecida. Ambos foram atos vergonhosos e seus responsáveis merecem punição.
A imagem que o PiG nos vende é “se é bom para o povo, é ruim para você”. Mas tem algo errado aí, não? Eu, você e mais 190 milhões de brasileiros não somos esse tal de povo? Vendem a imagem de que o nordestino é burro e que vota com a barriga, mas o nordeste nunca esteve tão bem economicamente como nos últimos anos. Se o que é pobre é ruim, então por que o estado mais rico do país elegeu Tiririca e mais uma corja a suas custas? Falam de comodismo no que se refere ao Bolsa Família, mas esquecem de dizer que foi graças a este programa que muitas famílias conseguiram se erguer financeiramente e caminhar com suas próprias pernas. E o que dizer então sobre o programa Luz Para Todos ou Minha Casa, Minha Vida? Se você está lendo este texto debaixo do teto que conquistou com muito esforço, algum motivo para acreditar que outros não possam ter essa oportunidade? Quem se beneficia de tais programas não está simplesmente ganhando, está recebendo apoio, o que é diferente. E se você reclama que a classe média não foi beneficiada pelo governo, lembre-se que provavelmente seu carro zero ou seus eletrodomésticos foram comprados em época de IPI reduzido. E isso tudo, segundo o PiG, é péssimo para o crescimento do país.
Eu já disse que o PiG (ok, vou dar nome aos bois! Veja, Época, Zero Hora, Rede Globo…) apóia descaradamente José Serra, não? Seja esse apoio por meio de difamação, distorção ou omissão de fatos. E falo “descaradamente” porque eles insistem em dizer que são imparciais. E também já falei alguma coisa sobre o que a Yeda fez com a educação no Rio Grande, certo? Então o que dizer sobre o programa de Serra para a educação, com bônus para os professores das escolas com melhor desempenho? Como andei lendo por aí, quem vive de bônus é vendedor (não desmerecendo quem é, por favor!), professor – uma das mais nobres profissões que existem – merece é salário e aposentadoria dignas. Merece um plano de carreira a altura da função que exerce e mais incentivo para que jovens queiram trilhar o caminho da educação. Essa de querer manter o povo burro para que a maior parte da riqueza possa ficar nas mãos de poucos é um pensamento digno de idade média, além de muito egoísta, claro. Serra também promete, caso eleito, elevar o salário mínimo para R$ 600 ainda em 2011. Isso é mentira apenas por que, perante a lei, é impossível. O reajuste de salário mínimo é feito no mês de janeiro com pagamento em fevereiro. E este aumento deve ser sansionado pelo Presidente da República no ano anterior. Então como que José Serra dará aumento no salário mínimo já em 2011 se o presidente, até o fim de dezembro, será o Lula? E já há um reajuste previsto para pouco mais de R$ 600 em 2012.
Eu poderia passar horas escrevendo o que candidato A tem que B não tem e vice-versa, mas não o farei. O que me fez tomar a difícil decisão de declarar meu voto em Dilma Rousseff ao invés de votar nulo ou me abster foi justamente a campanha de José Serra e o PiG. Serra, em atos de puro desespero, está mostrando quem realmente é. Ele e seus aliados: inclusive a Igreja Católica, que inventa mentiras para que os fiéis não votem em Dilma. A igreja, aliás, por não pagar impostos não deveria se meter em política. Então eu penso: é realmente isso o que quero para meu país, meu futuro e o futuro dos meus filhos? Um governo que só pensa em minorias abastadas, se baseia na mentira e em promessas que não podem ser cumpridas, se pinta de verde pra dizer que é ambientalista e não está nem aí para a educação e bem-estar do povo? Definitivamente não é esse o país que quero. Embora Dilma Rousseff não represente o ideal pra mim, me sinto obrigado a impedir que um homem sem princípios assuma o controle do país e venda para estrangeiros o pouco que ainda é NOSSO.
Links:
O voto no Nordeste para além do preconceito (Fórum)
Serra, quem vive de bônus é vendedor; profissional da educação merece é salário e aposentadoria digna!, por Augusto da Fonseca.
Serra não pode definir salário mínimo de 2011, diz ministro do trabalho (G1)
O que é o Partido da Imprensa Golpista?
Informações sobre a construção da usina de Belo Monte
Igreja Católica imprime milhões de panfletos contra Dilma (R7)
Fundação norte-americana denuncia esquema golpista patrocinado pela CIA no Brasil (sobre este link em especial: lembram da Venezuela em 2002? Honduras 2009? Equador 2010? Brasil 2011??? Se possível, procurem assistir o documentário The War on Democracy – A Guerra contra a Democracia).
Pior que tá fica, sim!, por O Bicicreteiro
Dois Projetos Radicalmente Diferentes, por Durval Muniz de Albuquerque Júnior.
Muito mais informação sobre as eleições no site da Revista Fórum.


