Vamos ao show do Ten Years After?
Aqueles que estão acostumados a comprar coisas usadas em brechós, sebos, lojas de discos e por aí vai, já devem ter se perguntado “de onde veio isso? Quem foi o antigo dono e qual a história desse livro/roupa etc?”. Todo objeto usado, por mais insignificante que pareça ser, tem algo pra contar e muitos, algum bom motivo para estarem sendo comercializados novamente. Às vezes aparece alguma preciosidade, algo de valor quase inestimável para quem é fã…
Reza a lenda que os músicos do Ten Years After se conheceram em uma parada de ônibus e, descobrindo que cada um tocava um instrumento diferende, resolveram formar uma banda. Ten Years After foi seu primeiro álbum, lançado em 1967. Estava na prateleira namorando uma reedição deste disco com várias bonus tracks, encarte grosso e cheio de fotos e informações. Então o atendente aparece com um “usado e mais barato”. Claro que, sendo usado, tem que dar uma conferida no estado de conservação. Abro o encarte e “porra, cara! tu viu isso??”.
Na internet posso baixar toda a discografia da banda que eu quiser, mas jamais teria a surpresa de pegar um CD fabricado na Alemanha Ocidental (1988), em excelente estado de conservação e o melhor: com dois ingressos para o show dos caras dentro do encarte! O antigo(a) dono(a) certamente era fã dessa banda pra ter guardado por tanto tempo algo assim. Este show aconteceu no Salão de Atos da Reitoria da UFRGS numa sexta-feira, 23 de maio de 1997 (a julgar pela confecção do ingresso, número de telefone impresso…).
Não encontrei qualquer referência sobre este show na internet, mas acredito que tenha sido um show de melhores momentos dos 30 anos de carreira da banda até então. O último disco a ser lançado havia sido o About Time, de 1989 (e que não é nenhum disco genial como os primeiros). Isso me leva a crer que, caso fosse uma tour internacional, não estava em promoção nenhum lançamento recente.
Fiquei imaginando como um pedaço de história desses foi parar numa loja de discos usados. Será que a pessoa morreu e algum familiar vendeu? Não sei se um familiar saberia do valor que um disco desses tem. Um relacionamento que a acabou e o disco, tendo sido esquecido na casa do ex-cônjuge, foi vendido como forma de vingança? Um assalto talvez? Ou simplesmente foi uma sequelada daquelas bonitas (se fosse pra vender o disco, guardaria comigo os ingressos)? Não sei, mas certamente darei continuidade na preservação disso.
Existem coisas que, por mais fáceis que possam ser, a internet jamais terá a capacidade de proporcionar. Por isso, deixo como conselho: visite regularmente sebos, brechós e lojas de discos usados. Faz bem. Mesmo. O mundo real continua sendo mais intressante que o virtual.
Sandy Denny, ao fim de novembro
Late November abre o disco The North Star Grassman and The Ravens de Sandy Denny, uma das expoentes do folk britânico dos anos 1970. No hemisfério norte, novembro é um tempo de frio, e o frio traz consigo certa instrospecção. E é bem este o clima de The North Star, onde até mesmo as músicas mais alegres possuem um ar melancólico.
Mas mais que falar sobre este excelente disco, gostaria de contar a história de como ele veio parar nas minhas mãos. Pois é, não estou falando de um disco que baixei na internet, falo de um disco de verdade, um daqueles pequenos objetos que contém música, encarte de papel com letras, fotos, informações sobre o artista e que eram muito populares no século passado.
Ao sair mais cedo do trabalho, dei uma passada na Jam Sons Raros de Novo Hamburgo. Há meses que não comprava um disco, então decidi me dar este presente de natal. Sem saber exatamene o que queria, fui olhar a prateleira onde ficam os discos de folk atrás de, de repente, algum Neil Young, um The Band ou algo do gênero. Então o atendente, um verdadeiro “livreiro” do seu meio, me mostrou este Sandy Denny, perguntando se eu a conhecia. O nome não me disse muita coisa de imediato, mas rapaz logo me lembrou que ela é quem faz o dueto com Robert Plant em Battle of Evermore, do Led Zeppelin IV. Ouvi, gostei e comprei.
Naquele momento me dei conta da magia de ir até uma loja de discos, conversar com o vendedor sobre o assunto e aprender coisas que sozinho provavelmente não descobriria. Ter um disco em mãos também gera uma certa obrigação de ler o encarte e aprender mais sobre aquela obra e o artista que a compôs. Coisas como essa praticamente não acontecem mais com este advento que é baixar música pela internet. Somente os mais aficcionados correm atrás de informações sobre determinado album, isso quando baixam o álbum completo ao invés de uma ou duas músicas. Também sou uma vítima da internet e da facilidade de encontrar as coisas que ela proporciona, pois é tanta música que não tem como ouvir tudo. Com um disco é diferente: você coloca ele no aparelho de som e ouve do início ao fim, pelo menos uma vez. E enquanto ouve pode ler e aprender.
Sandy nasceu e morreu em Londres (1947 – 1978), vítima de uma hemorragia no cérebro decorrente de uma queda de escada. Filha de mãe musicista, estudou piano clássico na infância. Na Kingston Art College, teve como colegas Eric Clapton e Jimmy Page. Acredito que date dessa época sua amizade com o guitarrista, já que anos depois ela faria sua participação como convidada na banda (a única convidada que o Led Zeppelin teve em toda sua discografia). Sandy também passou pelo Fairport Convention. Nos menos de dois anos que ela ficou com o grupo, foi responsável por transforma-los naquilo pelo qual hoje são conhecidos: os inventores do folk rock britânico. Isso foi lá nos idos de 1968. Três anos mais tarde, em 1971, Sandy lançava seu primeiro álbum solo, The North Star Grassman and the Ravens.
Outro fato curioso que consta no encarte é que “a única canção folclórica do álbum é Blackwaterside (que ficou muito mais famosa com Jimmy Page no Led Zeppelin)”. Fiquei curioso para saber que música é essa, pois não me lembrava do Zeppelin ter uma com este título. E realmente não tem. Pesquisando a respeito, descobri que a música a qual o encarte se refere é, na verdade, Black Mountain Side. Page se inspirou de fato nesta canção chamada Blackwaterside, mas não na versão de Sandy Denny. Isso seria simplesmente impossível já que a de Denny é de 1971 e a do Zeppelin de 1968 (ano da gravação). Jimmy Page se inspirou na versão de Bert Jansch, do seu disco Jack Orion, de 1966. [Fonte]
Além de sua passagem pelo Fairport Convention e a participação no Led Zeppelin, Sandy também fez parte do Strawbs e do Fotheringay. Estes dois últimos não conheço, preciso ouvir! Em The North Star há uma boa variedade de sons, mas claro, tudo voltado para o folk. Sandy não toca, apenas canta em sete das 11 músicas do disco. Nas demais, toca piano ou violão de aço. Sua banda é basicamente composta por Richard Thompson na guitarra/violão de aço, Trevor Lucas no violão de aço, Pat Donaldson no baixo e Gerry Conway na bateria. Outros músicos participam de algumas faixas.
Sabe, comprar um disco importado, hoje, não é coisa que muitos podem se dar o luxo. Não é algo que sai barato, principalmente se compararmos aos custos de baixar um disco pela internet: centavos. Entretanto, veja só tudo o que acompanha um disco ao ponto de me fazer escrever sobre ele. Sempre gostei de comprar discos e provavelmente continuarei fazendo isso até o fim da vida. Em tempo: esta não foi minha única aquisição. Junto vieram um The Pentangle e um Ten Years After. Mas isso já é conto pra dois posts que estão por vir.
