Os vários ângulos do The Pentangle
No último texto falei sobre um certo Bert Jansch e em como sua versão de Blackwaterside influenciou Jimmy Page na Black Mountain Side, do primeiro Led Zeppelin. Então agora gostaria de falar justamente sobre a banda deste indivíduo, The Pentangle. Comprei Basket of Light junto com o The North Star (…) da Sandy Denny (que também regravou a canção folclórica irlandesa Blackwaterside) lá na Jam Sons Raros. E devo dizer, que sonzeira!
O Pentangles é uma banda de folk rock inglesa, mas ao contrário da Sandy Denny, eles são bem mais experimentalistas. Unem elementos da música folclórica da Grã-Bretanha com a música indiana e o jazz. Isso para não falar do rock. Basket of Light é o terceiro disco do grupo, lançado em 1969. Apesar de dois anos “atrasado”, é clara a influência que a cena psicodélica da San Francisco de 1967 tem sobre este disco. Alguns licks de guitarra e até mesmo a forma como Jacqui McShee canta me lembrou muito Jefferson Airplane.
Entretanto, existem fatores que os tornam algo muito além de uma banda que apenas lembra Jefferson: seu som é único. Pessoalmente, nunca antes tinha ouvido uma banda com uma sonoridade tão rica dentro do gênero folk como fazem o Pentangle. A começar pelo contrabaixo, não apenas é um acústico como em boa parte das músicas o baixista Danny Thompson toca com o arco, algo muito raro de se encontrar fora do meio erudito, ainda mais em se tratando de rock. E mais: ao invés de sintetizadores, por que não explorar o potencial do grandão tocado com arco para criar alguns efeitos? Pois é justamente isso o que acontece.
Quebradas típicas do rock progressivo (como Yes, ELP, Genesis…) também são marca registrada deste disco. Mas a grande diferença é que tais quebradas são seguidas pela voz doce de Jacqui cantando a melodia, como se pode ouvir na música The Cuckoo. O bluegrass é outro gênero que se faz presente na banda através do banjo de Bert Jansch. E o mais legal é ouvir um instrumento desses tocando em conjunto com uma cítara! A faixa seguinte, House Carpenter é assim. Outro instrumento pouco comum utilizado pelo Pentangles é o Glockenspiel, um instrumento que se assemelha ao xilofone e ao vibrafone, mas que, diferentemente do primeiro, possui placas de metal ao invés de madeira. E diferente do vibrafone pois possui uma tessitura menor, dando ênfase à região mais aguda.
A seguir, uma livre tradução das notas originais de cada música contidas no disco. Só não traduzo aqui os nomes das músicas, como as indústrias brasileiras dos anos 1970/1980 gostavam de fazer e, não raro, via-se bizarrices do tipo Sabbath Bloody Sabbath = Sábado, Sangrento Sábado.
Light Flight (Tema de “Take Three Girls): essa música foi tema da série de TV Take Three Girls, veiculada pela BBC-1. A série foi a primeira em cores que passou pela BBC. A música passeia entre os tempos de 5/8, 7/8 e 6/4. Algo que soa muito bem, fantástico e sem parecer uma forçada de virtuosismo. N.T.
Once I Had a Sweetheart: uma famosa variante americana da canção tradicional inglesa A Maid Set A-Weeping, com adição de versos de As Sylvie Was Walking, músi caregional do sudoeste da Inglaterra.
Springtime Promises: Escrita depois de uma viagem no andar de cima de um ônibus linha 74, de Gloucester Road para Greencroft Gardens, no início de uma primavera.
Lyke-Wake Dirge: Um antigo poema inglês que fala sobre a evolução da alma no pós-vida. Sua mensagem data de milhares de anos antes do Cristianismo, mas a idéia se preservou através das rodas de música de crianças como Hopscotch e London Bridge is Falling Down.
Train Song: Um lamento sobre o trem a vapor que vai passando. O título do disco vem de um verso desta canção.
Hunting Song: É baseada na história de um recipiente para bebidas feito de chifre de um bovino que é mágico (magic drinking horn) e foi enviado pela fada Morgana para a corte do Rei Artur, prevendo os incidentes em suas jornadas.
Sally Go Round The Roses: Uma música dos Jaynetts, que parece ter sido esquecida tendo deixado para trás alguns sons agradáveis e gente triste.
The Cuckoo: Uma canção folk de Somerset a qual Bert Jansch aprendeu com seus vizinhos em Sussex.
House Carpenter: Uma balada do sul dos Estados Unidos derivada da canção folk inglesa The Daemon Lover, na qual o amante é o diabo personificado.
O Pentangle é formado Terry Cox na bateria, glockenspiel e percussões; Bert Jansch no violão, banjo e vocais; Jacqui McShee nos vocais; John Renbourn no violão, cítara e vocais e Danny Thompson no contrabaixo acústico.
Sandy Denny, ao fim de novembro
Late November abre o disco The North Star Grassman and The Ravens de Sandy Denny, uma das expoentes do folk britânico dos anos 1970. No hemisfério norte, novembro é um tempo de frio, e o frio traz consigo certa instrospecção. E é bem este o clima de The North Star, onde até mesmo as músicas mais alegres possuem um ar melancólico.
Mas mais que falar sobre este excelente disco, gostaria de contar a história de como ele veio parar nas minhas mãos. Pois é, não estou falando de um disco que baixei na internet, falo de um disco de verdade, um daqueles pequenos objetos que contém música, encarte de papel com letras, fotos, informações sobre o artista e que eram muito populares no século passado.
Ao sair mais cedo do trabalho, dei uma passada na Jam Sons Raros de Novo Hamburgo. Há meses que não comprava um disco, então decidi me dar este presente de natal. Sem saber exatamene o que queria, fui olhar a prateleira onde ficam os discos de folk atrás de, de repente, algum Neil Young, um The Band ou algo do gênero. Então o atendente, um verdadeiro “livreiro” do seu meio, me mostrou este Sandy Denny, perguntando se eu a conhecia. O nome não me disse muita coisa de imediato, mas rapaz logo me lembrou que ela é quem faz o dueto com Robert Plant em Battle of Evermore, do Led Zeppelin IV. Ouvi, gostei e comprei.
Naquele momento me dei conta da magia de ir até uma loja de discos, conversar com o vendedor sobre o assunto e aprender coisas que sozinho provavelmente não descobriria. Ter um disco em mãos também gera uma certa obrigação de ler o encarte e aprender mais sobre aquela obra e o artista que a compôs. Coisas como essa praticamente não acontecem mais com este advento que é baixar música pela internet. Somente os mais aficcionados correm atrás de informações sobre determinado album, isso quando baixam o álbum completo ao invés de uma ou duas músicas. Também sou uma vítima da internet e da facilidade de encontrar as coisas que ela proporciona, pois é tanta música que não tem como ouvir tudo. Com um disco é diferente: você coloca ele no aparelho de som e ouve do início ao fim, pelo menos uma vez. E enquanto ouve pode ler e aprender.
Sandy nasceu e morreu em Londres (1947 – 1978), vítima de uma hemorragia no cérebro decorrente de uma queda de escada. Filha de mãe musicista, estudou piano clássico na infância. Na Kingston Art College, teve como colegas Eric Clapton e Jimmy Page. Acredito que date dessa época sua amizade com o guitarrista, já que anos depois ela faria sua participação como convidada na banda (a única convidada que o Led Zeppelin teve em toda sua discografia). Sandy também passou pelo Fairport Convention. Nos menos de dois anos que ela ficou com o grupo, foi responsável por transforma-los naquilo pelo qual hoje são conhecidos: os inventores do folk rock britânico. Isso foi lá nos idos de 1968. Três anos mais tarde, em 1971, Sandy lançava seu primeiro álbum solo, The North Star Grassman and the Ravens.
Outro fato curioso que consta no encarte é que “a única canção folclórica do álbum é Blackwaterside (que ficou muito mais famosa com Jimmy Page no Led Zeppelin)”. Fiquei curioso para saber que música é essa, pois não me lembrava do Zeppelin ter uma com este título. E realmente não tem. Pesquisando a respeito, descobri que a música a qual o encarte se refere é, na verdade, Black Mountain Side. Page se inspirou de fato nesta canção chamada Blackwaterside, mas não na versão de Sandy Denny. Isso seria simplesmente impossível já que a de Denny é de 1971 e a do Zeppelin de 1968 (ano da gravação). Jimmy Page se inspirou na versão de Bert Jansch, do seu disco Jack Orion, de 1966. [Fonte]
Além de sua passagem pelo Fairport Convention e a participação no Led Zeppelin, Sandy também fez parte do Strawbs e do Fotheringay. Estes dois últimos não conheço, preciso ouvir! Em The North Star há uma boa variedade de sons, mas claro, tudo voltado para o folk. Sandy não toca, apenas canta em sete das 11 músicas do disco. Nas demais, toca piano ou violão de aço. Sua banda é basicamente composta por Richard Thompson na guitarra/violão de aço, Trevor Lucas no violão de aço, Pat Donaldson no baixo e Gerry Conway na bateria. Outros músicos participam de algumas faixas.
Sabe, comprar um disco importado, hoje, não é coisa que muitos podem se dar o luxo. Não é algo que sai barato, principalmente se compararmos aos custos de baixar um disco pela internet: centavos. Entretanto, veja só tudo o que acompanha um disco ao ponto de me fazer escrever sobre ele. Sempre gostei de comprar discos e provavelmente continuarei fazendo isso até o fim da vida. Em tempo: esta não foi minha única aquisição. Junto vieram um The Pentangle e um Ten Years After. Mas isso já é conto pra dois posts que estão por vir.
