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Essencial liberdade

Pedalar é a liberdade em sua essência. Logo que (re)comecei a andar de bicicleta (minha última foi roubada quando tinha 12 anos e só comprei outra com 24), não entendia muito bem o motivo de tanta exaltação à este meio de transporte tão simples e que pouco se modificou ao longo de sua existência. Mas pouco tempo depois e já com alguns quilômetros nas costas, digo, nas pernas, ficou claro porque a bicicleta é tão amada.

É engraçado perceber o mundo sob outra ótica. Enquanto uns te acham um xiita por preferir a bicicleta ao automóvel, essa atitude causa admiração em outros, talvez vontade de fazer o mesmo. Gostoso conversar sobre o assunto e ver os conhecidos também pedalando nessas ruazinhas do centro de São Leopoldo. Uns têm receio porque a bicicleta não é “boa” e então eu digo que não é preciso ter uma super magrela pra poder curtir essa liberdade. O bom é que alguns me dão ouvidos!

Talvez seja meio maluco. Faz pouco mais de ano que readquiri o hábito de pedalar por aí e ja tive dois acidentes mais sérios. Um deles, inclusive, me afastou por três meses das minhas aventuras. Mas agora, voltando aos poucos, redescobrindo (de novo) o quão bom é sentir o vento na cara, mesmo sendo o vento do outono, a única coisa que invade a mente é querer ir cada vez mais longe. Pedalar na cidade é gostoso, mas no meio do mato, do nada, é melhor ainda. Sentir o cheiro dos eucaliptos, se sujar nas estradas de terra, se um pneu fura então pára tudo pra consertar e se sujar de graxa… e pode acreditar, isso é muito bom!

Aos que conhecem essa região, meu passeio preferido é ir até Dois Irmãos por dentro de Sapiranga e voltar por Ivoti e Estância Velha. Ou então simplesmente ir tomar uma guarapa lá na Lomba Grande e ver emas, búfalos e vários outros animais pelo caminho que a gente da cidade não vê  normalmente . Isso tudo se movendo com a própria força ou uma eventual ajuda da gravidade.

Realmente, pedalar é a liberdade em sua essência.


Mobilidade urbana: desafio MUITO urgente

Tenho um recorte em mãos do Jornal VS na qual um dos vereadores de São Leopoldo, Fernando Henning, exprime sua opinião sobre mobilidade urbana. Uma opinião vista por de trás do pára-brisa. Por meio deste texto, gostaria de cutucar não só o vereador, pois este faz parte de um grupo de pessoas que tem a mobilidade urbana como uma de suas preocupações para a cidade em 2024 (bicentenário da imigração alemã), como também o próprio Jornal VS, que diariamente faz duras críticas aos congestionamentos na BR-116 e, no entanto, exibe diversos anúncios de automóveis em suas páginas. Uma contradição.

Falsa sensação de segurança proporcionada pelos blocos de concreto

Como o próprio Fernando diz em seu texto, em São Leopoldo foram 1212 carros novos em apenas três meses deste ano. Para uma cidade como a nossa, isso é muita coisa e percebo isso bem. Diariamente faço o deslocamento São Leopoldo – Novo Hamburgo para ir ao trabalho, de ônibus. Em horários de pico, um trajeto que até poucos anos atrás poderia ser feito em cerca de 20 minutos, hoje leva uma hora. Concordo completamente com o vereador quando este diz que deve haver um investimento maior no transporte coletivo e no que diz respeito à linhas circulares na cidade, evitando que moradores tenham que vir até o centro para então se deslocarem até outro bairro. Conseqüentemente, isso diminuiria o movimento na região central da cidade. No entanto, vejo São Leopoldo como uma cidade “planejada” exclusivamente para o transporte motorizado. Vide nossas poucas ciclovias por exemplo, que levam do nada ao lugar nenhum.

Quando se pensa em mobilidade, é preciso levar muitos pontos em consideração. Diariamente, arrisco dizer que milhares de pessoas vão para o trabalho de bicicleta em nossa região. É preciso pensar na segurança dessas pessoas: jovens, velhos, pais e mães de família que não são menos que ninguém apenas por preferir um meio de transporte que proporciona maior liberdade e, de quebra, não polui. O status social proporcionado pelo automóvel não deve ser levado em consideração se a intenção for proporcionar melhorias para toda a população. É esta a intenção do vereador?

Recentemente uma das principais avenidas de São Léo, a João Corrêa, foi completamente reestruturada. Suas pistas foram alargadas e as calçadas diminuidas. Não vejo motivo para não ter sido construida uma ciclovia em toda sua extensão, visto que muitos ciclistas trafegam por ali diariamente. Já na Av. Imperatriz Leopoldina existe sim uma ciclovia, que oferece uma pífea segurança à quem por ela trafega. Caso seja necessária uma ultrapassagem (de bicicletas), é preciso esperar até algum cruzamento, onde não existem os blocos de concreto de “proteção”.

Há espaço de sobra para automóveis e onde poderia existir uma ciclofaixa, é estacionamento.

Um detalhe no texto do Fernando que me chamou a atenção foi que em nenhum momento ele cita a bicicleta como meio de transporte, justamente numa opinião sobre mobilidade urbana. Não vejo como essa mobilidade possa melhorar apenas considerando trem, automóveis e ônibus. Inclusive achei um absurdo quando ele diz que “a conquista de um carro pelos leopoldenses é um fato positivo, uma melhora na vida das pessoas”. Indago-o: melhora em que ponto, se quanto mais carros tivermos nas ruas maiores serão os congestionamentos? Não há quem não fique estressado em um. Outro ponto que também gostaria de levantar é que simplesmente construindo mais avenidas (ou alargando as já existentes) se consegue uma solução temporária para o problema do tráfego. Logo essas novas vias estarão tomadas pela crescente frota automotiva (1212 carros novos em apenas três meses deste ano). Por outro lado, concordo novamente com o vereador quando ele diz que a climatização dos trens possa ser um atrativo para que as pessoas deixem seus carros em casa.

Nova Geração

Quanto ao Jornal VS (e o NH também), fico muito chateado quando vejo notícias e mais notícias sobre os constantes congestionamentos nas rodovias da região ao lado de um anúncio de automóvel. Isso deixa o leitor, no mínimo, confuso. Em certos trechos do meu trajeto de volta a bordo do Centralão, vejo cenas lastimáveis causadas por esses congestionamentos. A mais comum delas são os motoristas que invadem calçadas para ganhar alguns metros de vantagem. Pergunto: de que adianta o jornal criticar furiosamente estes congestionamentos, como que procurando alguém para culpar, se sempre dá razão às montadoras e seus anúncios? Os motoristas nunca estão errados, não há nada de mal em comprar um carro novo e ser mais um a ficar preso ali porque o estado não disponibiliza uma estrutura maior para o transporte individual, não é mesmo? Hipocrisia em sua essência. Mas tudo bem que estes congestionamentos são gerados porque esses carros são ocupados, em sua maioria, por uma única pessoa. Esta é a São Leopoldo que será deixada para as futuras gerações?

Já que o vereador Fernando Henning está planejando uma São Leopoldo melhor para a comemoração dos 200 anos da imigração alemã, convido-o a pegar alguns exemplos sobre mobilidade lá da Alemanha, onde o uso da bicicleta é muito estimulado. E já que em seu texto o Fernando fala também sobre a copa de 2014, que tal pegar mais um exemplo de nossos imigrantes? Parafraseio parte deste texto do Blog de Ecologia Urbana: “Berlim, uma das sedes da Copa do Mundo de Futebol, em 2006, aproveitou o evento para desestimular o uso de carros. Num raio de 3 kms dos estádios, nada entrava senão pedestres e ciclistas . Num raio ainda maior, carros não entravam.” E da mesma forma, desafio o Grupo Editorial Sinos a pensar em mais soluções e não só reclamar dos congestionamentos em seus jornais. Em tempo: soluções reais para a mobilidade ao invés de pensar em apenas num seleto grupo de classe média-alta. A bicicleta é o veículo mais utilizado no mundo.

Aos interessados, digitalizei o texto do Fernando Henning, inclusive o verso do recorte. Ironicamente, ele estampa um anúncio da Sinoscar, revenda de automóveis aqui da região. Frente e o verso.

Veja mais fotos aqui. Se as descrições das fotos não aparecerem, clique no botão Show Info no canto superior direito da tela. E veja só como são as coisas! Eu estava prestes a clicar no botão “Publish” quando vejo no twitter do @bvcicloturista o video abaixo. É uma reportagem do portal G1 sobre a bicicleta como meio de transporte para ir ao trabalho. Embora seja na cidade de São Paulo, a realidade aqui em São Leopoldo é a mesma. Assista!

E um update. Coloco aqui outro video que foi postado nos comentários pelo Olavo Ludwig. O video mostra o desafio do ex-prefeito de Bogotá em tornar a cidade mais humana e menos dependente dos automóveis. Uma frase que gostei muito é que o estacionamento de automóveis não é um problema público. Vale a pena assistir também.


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